Louis Armstrong: o ícone do Jazz

Louis Daniel Armstrong é originário da maravilhosa cidade de New Orleans, que recebeu um artigo especial no mês passado. Aliás, essa dupla – New Orleans e Louis Armstrong – só poderia dar certo, não é mesmo?

Ele nasceu em 1901 e faleceu em Nova York, em 1971. Foi cantor, trompetista, cornetista e saxofonista, mas é sobretudo conhecido por sua voz grave e seus solos de trompete.

Assim como B.B. King, Louis Armstrong nasceu em uma família muito pobre. Houve uma hora em que ele levantou voo e a ascensão foi imensa. Conheça a história dele:

Infância e adolescência, cheias de pedras

Seu pai abandonou a família quando ele ainda era criança. Sua mãe o deixou com sua tia, tio e a sua avó, pois fazia bicos como prostituta para pagar as contas.

Louis Armstrong também fazia seus bicos como sapateiro ambulante e entregador de jornais, mas o que ganhava não era suficiente para ajudar a mãe a sair da prostituição.

O garoto, então, passou a entrar disfarçado em bares perto de sua casa, para ouvir e ver os cantores. Armstrong também tinha contato com a música na escola onde estudava, e de onde saiu com 11 anos. Depois da saída, ele resolveu formar um quarteto que tocava na rua para ganhar alguns trocados.

Nesses tempos, Louis Armstrong já tinha ganhado um trompete, presente de uma família imigrante judaica e lituana que cuidava dele quando a mãe estava fora. Aqui, cabe um parêntese: Louis Armstrong sempre foi muito grato a essa família e, por conta disso, usou uma Estrela de David durante toda a sua vida.

Como ele se metia em muitas encrencas, ele acabava sempre indo para uma instituição local que acolhia os menores abandonados.

Essa instituição tinha uma banda, e foi lá que Armstrong desenvolveu a sua maneira de tocar trompete. O professor de música da instituição, Peter Davis, começou a dar instrução musical a Armstrong e, eventualmente, dava ao garoto o posto de líder da banda.

A banda tocava nos arredores de New Orleans e o menino de 13 anos começou a chamar atenção pelo modo como tocava trompete.

Aos 14 anos, Armstrong saiu da instituição e conseguiu seu primeiro emprego noturno, em uma casa de New Orleans chamada Henry’s Ponce. Ele também tinha um emprego diurno, no qual queimava carvão em uma fábrica.

Nessa época, Louis Armstrong frequentava outros bares e ouvia, sempre que podia, os músicos mais velhos. Bunk Johnson, Buddy Petit e Joe “King” Oliver inspiraram muito o jovem. King Oliver, inclusive, atuou como mentor e figura paternal de Armstrong.

Ele começou a tocar em uma banda bem conceituada, chamada Fate Marable. Com eles, Armstrong viajou em um dos famosos barcos a vapor pelo rio Mississippi. Mais tarde, o artista descreveria essa época como “indo para a universidade”.

Em 1919, Joe Oliver deciciu ir para o norte do país e renunciou à sua posição na banda Kid Ory. Armstrong o substituiu.

Louis Armstrong teve 4 esposas. Nesta foto, ele está com Lucille, que foi sua quarta e última esposa

Levantando voo

Durante as suas experiência de “riverboat” – isto é, tocando nos barcos a vapor que subiam e desciam o rio Mississippi –, a música de Armstrong amadureceu. Aos 20 anos, ele já lia partituras, tocava longos solos de trompete e cantava em suas performances.

Em 1922, ele foi para Chicago, para se juntar à banda de King Oliver, nomeada Creole Jazz Band. Nesta cidade do norte, pela primeira vez, Armstrong morou em um apartamento próprio, com banheiros privados, e não precisou fazer bicos em bares. O que ele ganhava com a banda de Joe era suficiente para viver.

Sua carreira entrava em ascensão e ele era desafiado a tocar em bares por Chicago. Sempre ganhava os desafios. Nessa época, ele ainda realizou as suas primeiras gravações, incluindo alguns solos, e casou-se com a pianista Lil Hardin Armstrong.

Lil encorajou Louis a criar um estilo próprio e a se diferenciar de King Oliver. A influência de Lil acabou determinando a relação entre Louis e Oliver, especialmente em questões salariais e de dinheiros adicionais, que Oliver afastava dele e dos outros membros da banda. Esta se desfez em 1924, e Armstrong foi convidado a ir tocar com uma orquestra em Nova York, a Fletcher Henderson Orchestra.

Foi uma experiência nova para o músico, mas durou apenas 1 ano. Em 1925, ele retornou a Chicago e assumiu que tocar com orquestra era mais limitado.

Ele, então, começou a fazer gravações com seu próprio nome e produziu grandes sucessos, como Potato Head Blues, Muggles e West End Blues. Estas gravações clássicas são, até hoje, grandes influências para os músicos de Jazz.

Armstrong estava no auge e podia desenvolver seu estilo pessoal como quisesse.

No entanto, ele foi afetado pela crise de 1929, assim como muitos outros músicos. King Oliver, por exemplo, fez algumas gravações que não tiveram nenhum sucesso. Armstrong foi para Los Angeles em busca de novas oportunidades. Tocou com uma banda lá, e até apareceu em seu primeiro filme, o “Ex-Flame” – ele apareceria em outros filmes ao longo de sua carreira.

Em 1931, retornou para Chicago, onde tocou com duas bandas. Foi relembrado pelo público e decidiu fazer uma turnê por quase todos os estados dos Estados Unidos.

Em março de 1934, Armstrong retornou para New Orleans, sua cidade natal, onde foi recebido como um herói.

Na década de 1940, e nas duas décadas seguintes, Armstrong faria uma média de 300 shows ao ano. Suas gravações batiam recordes de vendas, e ele passou a ser reconhecido como um ícone americano. Esse status causou polêmica, sobretudo nos anos 1950 e 1960, quando surgiu o movimento pelos direitos civis dos negros nos Estados Unidos.

Armstrong foi criticado por membros deste movimento, pois era bem-aceito pela sociedade branca, e parecia gostar disso. O músico se hospedava em hotéis reservados só para brancos e frequentava lugares – restaurantes e outros estabelecimentos públicos – onde os brancos eram, senão 100% do público, pelo menos a esmagadora maioria.

Assim Louis Armstrong viveu o resto de sua vida. Ele faleceu de ataque cardíaco, aos 69 anos. Tinha uma personalidade muito carismática, que é possível ver em seus vídeos.

Os hits de Louis Armstrong

What a Wonderful World, canção que está gravada na memória de todos na voz de Armstrong, foi gravada por ele em 1967.

Mas ele gravou muitos outros hits, inclusive canções francesas consagradas, como La Vie en Rose e C’est si Bon. Outros sucessos foram:

  • Georgia on my Mind
  • Hello Dolly
  • You’ll Never Walk Alone
  • We Have All The Time in The World
  • Nobody Knows The Troubles I’ve Seen

Clique aqui para escutar outros hits deste lendário artista que foi Louis Armstrong.

Um pouco de New Orleans (e de comida…)

New Orleans é a capital mundial do Jazz. É uma cidade portuária de 390 mil habitantes localizada no estado de Louisiana, no sul dos Estados Unidos. Apesar de ser o maior centro metropolitano do estado, New Orleans não é a capital da Louisiana – este posto pertence a Baton Rouge, com 230 mil habitantes.

New Orleans tem esse nome, porque foi fundada pelo francês duque de Orléans, que foi regente da cidade de 1715 até 1723. Essa região dos Estados Unidos foi colonizada por franceses e sempre teve forte influência europeia – na cultura, gastronomia, arquitetura (como vocês podem ver na foto abaixo) etc.

Além dos europeus, New Orleans — e muitas outras cidades do sul dos Estados Unidos — sempre receberam muitos negros e mestiços vindos da América Central. Esses povos eram comumente chamados de crioulos, e carregavam com eles muitos traços da Espanha, que havia colonizado a maior parte das ilhas e países da América Central.

Para finalizar a onda de imigrantes, havia os negros africanos, muitos dos quais vinham forçados a trabalhar como escravos nas lavouras de algodão do sul dos Estados Unidos, e também os acadianos, que posteriormente formaram a cultura Cajun – foi esta cultura que deu origem ao Swamp Pop, como já foi dito aqui no blog.

Essa mescla de africanos, acadianos, europeus – sobretudo franceses, ingleses e espanhóis e seus descendentes – e americanos resultou em uma troca riquíssima de culturas de culminou, entre outros, no Blues e no Jazz, essas criações maravilhosas que exerceram influência em praticamente todos os ritmos ocidentais que surgiram depois deles.

Mas também são interessantes a gastronomia e a arquitetura resultantes desse encontro. O centro de New Orleans, onde fica a famosa Bourbon Street, o coração da cidade, é chamado de French Quarter (bairro francês, em tradução livre) e tem uma arquitetura maravilhosa, com influência europeia e também crioula.

Comida, onde tudo se encontra

Jambalaya

New Orleans também é bastante conhecida pela sua gastronomia. A culinária autóctone, originária dos indígenas, exerce bastante influência na gastronomia como um todo. Além, é claro, das culinárias francesa, espanhola e crioula.

Umas das especialidades da região são os famosos beignets, um tipo de “donuts francês” delicioso, que é servido acompanhando de café com leite. O café de lá, inclusive, não é só café. É uma mescla muito particular de café e chicória.

Po-boy é um sanduíche tradicional. Ele consiste em carne – em geral rosbife ou frutos do mar fritos – servida em uma baguete típica da região, conhecida por sua casca crocante e seu miolo bem fofinho. Alface, tomate, maionese, mostarda e picles também podem ir no pão, acompanhando a carne.

Frutos do mar são muito comuns em New Orleans – que, como foi dito acima, é uma cidade portuária. Ostras e camarões compõem grande parte dos pratos.

Étouffée é outro prato regional. Resultante de uma mescla das culinárias crioula e cajun, ele consiste em carnes cozidas em caldos e servidas com arroz. Este prato emprega uma técnica conhecida como “smothering” (abafamento, em tradução livre), um método bastante popular na culinária Cajun. Ele consiste basicamente em cozinhar a carne em uma panela tampada, em fogo baixo e com uma pequena quantidade de molho. As carnes cozidas assim são servidas com arroz.

Jambalaya é um prato regional com mais influência espanhola e francesa, sobretudo da paella espanhola e da Jambalaia francesa (da região de Provence). São vegetais e carnes bem temperados e misturados com arroz. As carnes, geralmente, são salsichas, tripas, frutos do mar, porco e frango. Os vegetais mais comuns são cebola, alho, tomate, salsão e pimentas. Uma verdadeira delícia.

Étouffée de camarões

Quanto às sobremesas, a especialidade são as pralines, um doce feito com açúcar mascavo, açúcar cristalizado, creme, manteiga e nozes pecan.

Mas o prato predileto, aquele de toda segunda-feira, é o famoso arroz (rice) com feijão. Só que, nesta região, usam-se feijões vermelhos (red beans).

Inclusive, Louis Armstrong frequentemente assinava suas cartas dizendo “Red beans and ricely yours” (um trocadilho com a forma de assinar cartas em inglês, usando “sincerely yours”), em uma clara alusão à culinária de sua cidade natal.

Comida com Música

Louis Armstrong nasceu em New Orleans. Ele cresceu comendo todos esses pratos gostosos, que lhe deram sustância para que ele criasse as suas músicas.

É um dos muitos artistas que respiraram o ambiente musical do sul de Louisiana, e é Armstrong, sua vida e obra, o tema do próximo artigo do blog.

B.B. King, o rei do Blues

B.B. King, merecidamente, é considerado o Rei do Blues. Não à toa, hoje em dia, “blues” e “B.B. King” são quase sinônimos.

Ao lado de Jimi Hendrix e Eric Clapton, B.B. King é considerado um dos melhores guitarristas do mundo pela revista americana Rolling Stone.

Ao longo de sua carreira, ganhou 15 prêmios Grammy. Foi também o criador de um estilo musical único e difícil de ser imitado. Seus solos de guitarra continham poucas notas e eram extremamente apreciados por isso.

Seu nome era Riley Ben King, e o “B.B.” de seu nome significa Blues Boy, que era seu pseudônimo em uma rádio onde trabalhou.

Ele nasceu em Itta Bena, no estado de Mississippi, a 16 de setembro de 1925, e faleceu em Las Vegas, em Nevada, a 14 de maio de 2015.

Teve uma infância bastante dura. Aos 9 anos, ele vivia sozinho e colhia algodão para se sustentar. Depois, passou a tocar na rua, em troca de algumas moedas.

O começo

Aos 22 anos, ele partiu para Memphis, a cidade mais populosa do Tennessee. Ele tinha apenas dois dólares no bolso e a vontade de seguir carreira musical.

Na época, Memphis recebia muitos músicos importantes do sul dos Estados Unidos e lá era possível ouvir praticamente todos os estilos musicais dos negros sulistas. Nomes como Django Reinhardt (incrível guitarrista belga), Blind Lemon Jefferson e Charlie Christian logo tornaram-se ídolos de B.B. King — à época, apenas um garoto.

Foi o som da guitarra elétrica de T-Bone Walker o que mais cativou o jovem. “Em um sábado à noite, ouvi uma guitarra elétrica que não tocava música gospel negra. Era T.Bone interpretando Stormy Monday, e foi o som mais belo que ouvi em minha vida. Foi o que realmente me levou a querer tocar blues”, diria B.B. King mais tarde.

A primeira grande oportunidade de B.B. King aconteceu em 1948, um ano após ele chegar a Memphis. Neste ano, ele participou de um programa de rádio de Sonny Boy Williamson, em Memphis. Depois disso, conseguiu shows fixos em uma casa noturna no centro de Memphis e também integrou a equipe de um programa de rádio na estação WDIA – todos os participantes desta emissão, inclusive a diretoria, eram negros.

O programa King’s Sport tornou-se tão popular que aumentou seu tempo de transmissão na rádio e transformou-se no Sepia Swing Club. King precisava de um nome artístico para o programa, e data dessa época o seu apelido Blues Boy, que, posteriormente, seria abreviado para B.B. King. A carreira do jovem entrava em ascensão.

O auge

Em 1951, B.B. King faz a sua interpretação da música Three O’Clock Blues e explode.

Ele então começa a fazer turnês sem parar pelos Estados Unidos e chega a uma média de 275 shows por ano. Esse número aumentaria nos anos seguintes. Só em 1956, B.B. King e sua banda fizeram 342 shows – quase um show por dia!

Essa média de shows se manteria durante muitos anos, e, só quando B.B. King completou 70 anos, em 1995, anunciou que “diminuiria” o ritmo para 200 shows por ano.

Voltando às décadas de 1950 e 1960, não demorou muito para que B.B. King se tornasse o mais conceituado músico de blues, desenvolvendo um dos mais únicos estilos musicais de guitarra. Seu estilo serviu de inspiração para praticamente todas as gerações posteriores de artistas de Blues, Jazz, Rock, além de outros estilos musicais.

A partir da década de 1950, B.B. King só esteve no auge. Ele começou a realizar turnês internacionais e a participar dos principais festivais de Jazz e Blues do mundo todo, além de frequentar o circuito de universidades e colégios.

Ao todo, ele se apresentou em 90 países durante a sua carreira.

Para o Brasil, B.B. King veio diversas vezes. A última foi em 2012, três anos antes de sua morte. Em 1993, ele fez o show de abertura da casa de shows paulistana Bourbon Street Music Club. O Bourbon Street é uma casa de shows de Blues e Jazz muito conceituada da capital paulista e, recentemente, o blog Ma Petite Bulle fez um artigo excelente sobre o estabelecimento. B.B. King se apresentou diversas vezes no Bourbon Street.

A partir dos anos 2000, e apesar da idade, ele continuou se apresentando nos Estados Unidos e no mundo e fazendo muito sucesso por onde passava.

No início de abril de 2015, o Rei do Blues foi internado no hospital depois de sofrer de desidratação causada por diabetes do tipo 2, doença com a qual convivia há mais de duas décadas. Ele estava com algumas apresentações marcadas, mas teve que cancelar.

Em 14 de maio de 2015, ele faleceu, enquanto dormia. A autópsia concluiu que King morreu de causas naturais e confirmou que o grande artista sofria de diabetes, doença de Alzheimer e problemas cardíacos.

Hits e uma grande curiosidade

A lista de hits que ficaram famosos na interpretação de B.B. King é bastante extensa. Segue abaixo uma lista com 10 hits bastante conhecidos:

  • The Thrill Is Gone
  • Three O’Clock Blues
  • When Love Comes to Town
  • Everyday I Have the Blues
  • Rock Me Baby
  • Sweet Little Angel
  • Let the Good Times Roll
  • Why I Sing the Blues
  • Paying the Cost to Be the Boss
  • Key To the Highway

Agora, talvez a maior curiosidade relacionada a B.B. King seja o nome de suas guitarras. Todas elas se chamaram Lucille, e esse nome remete a um episódio da vida dele ocorrido em 1949, no início de sua carreira.

B.B. King estava se apresentando em um bar no Arkansas. Durante a apresentação, dois homens começaram a brigar e entornaram um barril aceso cheio de querosene.

Imediatamente, as chamas se espalharam pelo salão. King conseguiu por um triz escapar do estabelecimento com sua guitarra de 30 dólares. Depois, descobriu-se que a briga entre os dois homens tinha como motivo uma mulher chamada Lucille.

A partir daí, B.B. King nomeou todas as suas guitarras de Lucille, “para se lembrar de nunca brigar por uma mulher e nunca mais entrar em um bar em chamas”, segundo ele.

Aparentemente, o Rei do Blues conseguiu manter a promessa.

Blues, a origem de tudo

O Blues é a origem de tudo. Este estilo musical é o pai do Rock and Roll, do Pop, do Jazz e de muitos outros gêneros que cresceram e adquiriram independência. O Blues, no entanto, sempre será Blues, o mestre a quem todos se voltam.

O Blues nasceu no sul dos Estados Unidos. Os negros escravos que vieram da África cantavam seus cantos de louvor africanos durante o trabalho, nas lavouras de algodão. Os descendentes desses escravos criaram novas canções a partir desses cantos – e foi assim que, no final do século 19, nasceu o Blues.

Paisagem de Louisiana, estado do sul dos EUA

Este gênero sempre esteve profundamente ligado à cultura afro-americana do sul dos Estados Unidos, sobretudo nos estados de Alabama, Mississippi, Louisiana e Geórgia.

Ele é caracterizado por uma progressão específica de acordes, assim como pelas blues notes – chamadas em português de “nota fora”, embora seja mais comum ouvir as pessoas falando o termo em inglês. Uma blue note é uma nota cantada ou tocada com um timbre ligeiramente mais baixo do que o da escala maior, o que faz com que a nota tenha um som triste e melancólico.A própria palavra blues, em inglês, significa melancolia.

O primeiro tipo de blues: Delta

Não existe “a primeira canção de blues” ou “o primeiro artista de blues”. O Blues surgiu de uma forma mais social, ambiental e progressiva do que de uma única canção. Como foi citado acima, os primórdios do Blues estão nos negros africanos que cantavam seus cantos durante o trabalho nas lavouras de algodão, no sul dos Estados Unidos.

Há, no entanto, um primeiro nome popular que surgiu como músico específico de blues. Charley Patton, em meados da década de 1920, se destacou com sua música e é conhecido, até hoje, como o “pai do Delta Blues”.

O Delta Blues foi um dos primeiros estilos de Blues e originou-se na região do delta do rio Mississippi, que se estende de Memphis, Tennessee a norte, Vicksburg, Mississippi no sul, e do rio Mississippi a oeste ao rio Yazoo a leste.

Depois de Charley Patton, na mesma época, surgiram nomes como os de Son House, Tommy Johnson, Bo Carter, Leroy Carr. Na década de 1930, no entanto, surgiu um dos grandes nomes do Blues, até hoje: Robert Johnson.

Robert Johnson

Robert Johnson morreu cedo, aos 27 anos, e compôs apenas 29 canções. Apesar do pouco tempo de vida e do repertório pequeno, ele é um dos mais lendários e polêmicos artistas do Delta Blues. Há várias versões para a sua morte, a mais comum diz que tomou uísque envenenado pelo marido de uma de suas amantes.

As canções de Robert Johnson são consideradas alguns dos maiores clássicos de Blues de todos os tempos, e abriram as portas para as próximas gerações de músicos de Blues.

A guitarra elétrica revoluciona

No final dos anos 30 e início dos 40 surgiram as primeiras grandes bandas de blues. Uma era comandada por Big Bill Broonzy e outra por Sonny Boy Williamson.

Sonny Boy é também considerado o “rei da gaita”, o homem que colocou a gaita como instrumento de primeira grandeza no blues. Seus solos de gaita eram incríveis.

A partir de 1942, o Blues passa por sua primeira grande revolução, com a entrada em cena da guitarra elétrica. O lendário guitarrista T-Bone Walker foi o pioneiro na utilização da guitarra elétrica no Blues. Foi ele quem abriu caminho para o formato do Blues moderno, baseado na repetição de 12 compassos da melodia base, e com o solo totalmente livre do acompanhamento – ou seja, o puro improviso.

T-Bone Walker também foi o herói de infância de outro guitarrista lendário: Jimi Hendrix, que buscou durante toda a vida inspiração em seu ídolo.

O surgimento da guitarra elétrica e sua utilização no Blues levou esse estilo musical a um novo patamar. O Blues deixou de pertencer a um grupo pequeno de negros e se tornou cultura popular no sul dos Estados Unidos.

Como a população negra do sul estava em uma onda migratória para Chicago, por conta das condições precárias de vida, o Blues também chegou a Chicago, no norte do país.

Em Chicago, os artistas de Blues entraram em contato com instrumentos elétricos, o que possibilitou uma gama enorme de novas possibilidades com a música.

O Blues passou para o próximo nível.

O Blues de Chicago

Um dos precursores do Blues de Chicago e da utilização da guitarra elétrica foi John Lee Hooker. Ele tinha um estilo de cantar falado, que se tornou sua marca registrada. Também foi criador do Boogie Blues. Seu carisma era enorme e era quase impossível ficar parado enquanto ele cantava e tocava. John Lee Hooker abriu caminho para nomes consagrados do Blues da guitarra elétrica, como Muddy Waters.

Muddy Waters, uma dos artistas mais influentes do Blues americano

Muddy Waters foi o primeiro a utilizar apenas instrumentos elétricos em sua banda. Ele é o grande nome desta nova fase do Blues e é, talvez, ao lado de Roberto Johnson, a figura mais influente e popular do Blues americano. Ele também foi o primeiro artista de Blues a ter seu nome reconhecido fora dos Estados Unidos.

Muddy Waters compôs a canção Rollin’ Stone, que serviu de inspiração para o nome da banda Rolling Stones e também para o nome da revista americana homônima dedicada ao Rock. Ele ainda compôs e/ou interpretou inúmeros clássicos do Blues, como Baby Please Don’t Go, I Can’t Be Satisfied, Honey Bee e Hoochie Coochie Man.

Outros nomes de grande destaque desta segunda fase do Blues são o de Willie Dixon e Howlin’ Wolf. Wolf era guitarrista e gaitista e ficou conhecido por sua voz rouca e seu blues bastante swingado – uma delícia de ouvir. Os três – Muddy Waters, Willie Dixon e Howlin’ Wolf – fizeram parcerias que resultaram em verdadeiras obras-primas do Blues.

Nesse período em que a guitarra elétrica entrou em cena, no entanto, o grande artista que conseguiu a colocar como elemento central do Blues foi B.B. King.

Influenciado por T-Bone Walker, B.B. King levou o solo de guitarra para outro patamar. Ele criou um estilo único e inigualável de tocar o instrumento, e influenciou praticamente todos os guitarristas que vieram depois dele.

Mas não era apenas o solo de guitarra de B.B. King que fazia sucesso. Sua voz grave muitas vezes se destacava mais do que o próprio instrumento.

Não à toa, B.B. King se consagrou com o “rei do Blues”, e merecidamente. É por isso que consagraremos nosso próximo artigo inteiro para ele.

Origens e grandes sucessos do Swamp Pop

Swamp Pop é um gênero musical surgido na Louisiana, um estado localizado no sul dos Estados Unidos, na década de 1950. Jovens da comunidade Cajun se reuniram em torno de um objetivo comum – curtir os novos sons do rock’n’roll e mesclá-los à música local.

Os Cajun são descendentes de um grupo étnico chamado acadiano, que vivia no noroeste do Canadá. Por conta de uma perseguição religiosa, os acadianos tiveram que deixar suas terras. Alguns deles foram para Inglaterra, outros para a França, e outro grupo ainda foi se instalar no sul dos Estados Unidos, sobretudo na Luisiana, onde desenvolveram uma cultura própria, com muita influência francesa — a cultura Cajun.

Os jovens da comunidade Cajun estavam bastante abertos ao movimento do Rock que surgia nos Estados Unidos e não quiseram ficar para trás. Fizeram suas próprias canções, misturando a música Cajun, o rhythm and blues, o country e o western vindos também do interior dos Estados Unidos.

O resultado foram canções melódicas, parecidas com baladas. Quase todas são bastante emocionais e têm letras românticas, que versam sobre amor.

O duo Dale & Grace, artistas do Swamp Pop, em apresentação em 1963

O auge do Swamp Pop foi de 1958 a 1964, período em que cerca de 20 canções deste gênero apareceram nas paradas americanas. Embora pouco conhecido mundialmente, o Swamp Pop tem adeptos fervorosos nos Estados Unidos, na Inglaterra, no norte da Europa e, surpreendentemente, também no Japão.

É importante ressaltar que este gênero difere do Swamp Rock. Este último se desenvolveu na década de 1960 e teve a banda Creedence Clearwater Revival como principal expoente. O som do Creedence e dos artistas do Swamp Pop são totalmente distintos.

Origens do Swamp Pop

Quando crianças, os músicos do Swamp Pop ouviam música Cajun e música negra crioula, assim como country e western populares. Eles cresceram e, assim como outros jovens americanos, se encantaram com os novos sons que vinham surgindo com toda força na década de 1950: o rock’n’roll e o rhythm and blues. Artistas como Elvis Presley e Fats Domino passaram a ser seus ídolos também.

Estes jovens abandonaram os instrumentos típicos da música folk, mais rústicos e rurais – como o acordeão, triângulo e violino –, e adotaram novos instrumentos, como a guitarra elétrica, o baixo, o piano, o saxofone, que são mais urbanos.

Na segunda metade da década de 1950, os músicos do Swamp Pop haviam desenvolvido seu próprio som, a partir de todas essas influências. Eles conseguiram gravar suas canções em gravadoras locais. Alguns chegaram a gravadoras nacionais e alcançaram as paradas americanas. Para isso, no entanto, muitos deles esconderam do público seus sobrenomes de origem negra e Cajun, e adotaram nomes típicos da cultura do norte dos Estados Unidos.

Isto aconteceu, pois nessa época ainda havia muito preconceito dos americanos do norte contra os americanos do sul. O movimento pela igualdade de direitos civis, que iria florescer apenas na década de 1960, estava começando na década de 1950. Quase não se ouvia falar dele, portanto, os músicos do sul optaram por se “adequar” ao norte.

Apesar da clara influência do rock’n’roll e do rhythm’n’blues, a música Swamp Pop não é desprovida de características folk. É, na verdade, uma mescla dos dois.

Sucesso e declínio

Durante o seu auge (1958-1964), mais de 20 canções Swamp Pop alcançaram as paradas americanas, sendo que cinco delas alcançaram o Top 10, e três ficaram no Top 1.

Jimmy Clanton, um dos artistas do Swamp Pop

Grandes canções do estilo Swamp Pop são:

  • Sea of Love (1959), de Phil Phillips (essa ficou conhecida mundialmente)
  • Just a Dream (1958), de Jimmy Clanton
  • Prisoner’s Song (1958), de Warren Storm
  • This Should Go On Forever (1959), de Rod Bernard
  • I’m A Fool To Care (1960), de Joe Barry
  • I’m Leaving It Up To You (1963), de Dale and Grace

O Swamp Pop influenciou a música Tex-Mex e alguns artistas importantes do Rock, como Rolling Stones, Elvis Presley e até os Beatles – estes últimos compuseram a canção Oh! Darling a partir de uma clara influência Swamp Pop.

O gênero declinou um pouco com o fenômeno da Invasão Britânica, muito embora o Swamp Pop ainda tenha fãs de carteirinha em Louisiana e no Texas. Por lá, há festivais e eventos dedicados exclusivamente à música Swamp Pop.

Infelizmente, apenas alguns poucos músicos estão conseguindo substituir a geração original de artistas deste estilo, muitos dos quais estão, hoje em dia, na faixa dos 70 anos para mais.

Isto significa que os clássicos da música Swamp Pop, aqueles compostos 60 anos atrás, continuam ocupando a mente e o coração dos fãs deste estilo musical.